un dress

uma das condições indispensáveis da construção é a ingenuidade da disposição que torna o corpo leve e a ber to em consonância com a luminosa vibração do espaço e a sequência fluvial do tempo ~ antónio ramos rosa o aprendiz secreto

28.6.08

 







~










~




















































~
~













~~



~


7.6.08

 



~



apalpar poe mas ~




Gedichte be-tasten Gedichte be-greifen gedicht von gedichtenein gedicht

das nicht zu begreifen ist

möchte vielleicht betastet sein
ein gedicht das nicht zu betasten ist

möchte vielleicht betreten sein
ein gedicht das nicht zu betreten ist

möchte vielleicht betrachtet sein
ein gedicht das nicht zu betrachten ist




möchte vielleicht begriffen sein





] A pal par poemas


Ag ar rar poemas










poema de poemas um poema que não se pode agar rar













queira talvez ser






apal pado





um poema






que não se pode a pal par


queira talvez ser a den trado

um poema


que não se pode a dent r ar

queira talvez se olh a do



um poema


que não se pode ol har



queira tal vez ser com pre en dido

com

com pre en

com com com pre [en d ido ? comido


[[ Wo kämen wir hin Wo kämen wir hin, wenn alle sagten: Wo kämen wir hin , und niemand ginge, um einmal zu schauen, wohin dass man käme,

wenn man ginge ? Onde

chegar-íamos

Se todos dissessem: onde chegaríamos? mas ninguém fosse olhar ao menos uma vez onde chegaríamos se fôssemos?

se se se sesese se ssssssss sss






"autopsicografia" ou o conceito do leitor ideal




a poesia afasta da realidade. se, num vértice, é uma resposta ao mundo, no outro é a própria alucinação. os fabricadores de imagens mais não fazem que imitar o que veêm e sentem pelas calhas de roda. a verdade esconde-se do poeta que a dissimula e reverte-a e esconjura-a. aquele que melhor pinta, é também o artista mais perigoso: o que mais se aproxima da verdade e ilude os inofensivos, fá-los acreditar. pelo conceito de verosimilhança, a poesia leva os homens a acreditar. a poesia não pode ser uma vivência pessoal, não é um desabafo. os artifícios manejados pelo poeta não deviam motivar as paixões, desinquietar as peles. não desinquietou a dele!ler a poesia com uma finalidade útil. vivê-la quem lê. não senti-la.a linguagem poética é a linguagem que sofreu de inoperactividade. esvaziou do significado primeiro e ficou livre para receber novos conteúdos. o poema nunca quer dizer o que diz. nada há a dizer, daquilo que se vive.



["a poem should not mean, but be" archibald mac leish4'38/21 jan/para o "sombras múltiplas"

kurt marti poemas à margem desconstruído foto 1 linhas a brito

texto autopsicografia do blog da lia bettencurt gesta







.



28.5.08

 





~



peri feri a


s )(














) palomas pássaros pedras gatos cegonhas índicos indícios ~

cegonhas gansos aves cerejas [ aves cais ancorar lobo cais

: todo se explica en la impossibilidad













palomas gansos côncavos ais rosa abutre morabeza laranja




paloma~ s






âncora cais ondas sais ais ~ (((











Palomas.

Atraviesan

la inexistencia.

Hay huellas de pastor frente al abismo.


Cóncavas.

Todo se explica en la imposibilidad.

Hay úlceras en la pureza,

vamos

de lo visible a lo invisible.

En este error descansa nuestro corazón.






























( xxxxxxxxxxxxxxxx escatologicamente: consistimos: ondas sopro indícios: índicos ais: palomas




Quizá el silencio dura más allá de sí mismo y la existencia es sólo

un grito negro, un alarido ante la eternidad.


El error pesa en nuestros párpados.






( todo se explica: leis que: no todo: o amor? nada

: nada se explica: en la mitologia? (


)( todo se explica no ar: nu: não palavra: tudo
en la
movilidad: en las mornas ?


todo se explica na boca aberta: en la mixtura en todo: todo se implica ))

[ todo respira vento todo se implica tudo: todo


se explica subita e inexplicavelmente a:


ser:










alterações [ indefinitivas sobre poemas de antonio gamoneda in arden las pérdidas

foto1 e 4 ana franco 2 carlos cunha 3 diogo ramos moreira




~


26.4.08

 



~~









pour faire le portrait d´un ois eau ~









Peindre d'abord une cage
avec une porte ou verte
peindre en suite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'ois eau ~
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...




Parfois l'ois~eau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
at tendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'ois~eau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau




Quand l'ois~eau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'~oieau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de
l'ois~eau




Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'ois eau~
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'ois eau~ se décide à chanter




Si l'~ois eau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout douce ment
une des plumes de l'~ois eau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.





Para pintar o retrato de um pás s aro
Primeiro pinte uma gaiola
com a porta aberta.













Depois pinte






algo gracioso
algo simples
algo bonito
algo útil
para o pás s aro.
Então encoste a tela a uma árvore
em um jardim
em um bosque
ou em uma floresta.
Esconda-se atrás da árvore
sem falar
sem se mover...







Às vezes o pás s aro aparece logo
mas ele pode demorar muitos anos
antes de se decidir.
Não desanime.
Espere.
Espere durante anos, se for necessário.
A rapidez ou a lentidão do pás s aro
não influi no bom resultado
do quadro.




Quando o pás s aro aparecer
se ele o fizer
observe no mais profundo silêncio
até ele entrar na gaiola
e quando ele assim agir
delicadamente feche a porta com o pincel.







Então,
apague uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar na plumagem do pás s aro.
Em seguida, pinte o retrato de uma árvore
escolhendo o mais bonito de seus galhos
para o pás s aro.
Pinte também a folhagem verde e o frescor do vento
o dourado do sol
e a algazarra das criaturas, na relva,
sob o calor do verão.
e então espere até que o pássaro decida cantar.




Se ele não cantar
é um mau sinal,
um sinal de que a pintura está ruim.
Mas se ele cantar é um bom sinal
um sinal de que você pode assinar.
Então, com muita delicadeza, você arranca
uma das penas do pás s aro
e escreve seu nome em um canto do quadro.


































[ poema jacques prévert alterado trad não id

4 ~jacques prévert paris 1955 foto robert doisneau

3 ~henri matisse foto henri cartier-bresson

2 ~foto não id

1 ~modesto ooo2 desenho fernando zanforlin



31.3.08

 



~~




também as pessoas sérias





~



também as pessoas rias



se cruzam às vezes na sombra da tarde:

quando não podem fugir

indagam cuidadosamente a curvatura dos líquidos

recordando

estridências de ninhos muros exílios

tangerinas flores de orvalho

[ que também elas se lembram filhas do bosque e

mais por dentro

veados:


religam por isso os ecos da língua à noite

salivando como gotas alongadas

numa estranha e póstuma fidelidade:

assim se espalham

nos cantos do ar

nas águas que cegam nas cores que se

afagam.



[ as pessoas sérias



filtradas ao medo à ponte ao segundo

assim de repente inviáveis

num bito contrair galopado

arrastam consigo penas

interrogam

circulares:



:misteriosas

se inclinam

a murmurar traduções

no crivo da tarde




































foto1 robert and shana parkeharrison 2 the crossing idem





18.3.08

 


~~





a palavra











- Falais quando deixais de estar em paz com os vossos pensamentos, e quando já não conseguis lidar com a solidão do vosso coração, viveis com os lábios e o som é uma diversão e um passatempo.



E, em muita da vossa conversa, o pensamento fica amordaçado.



Pois o pensamento é um pássaro do espaço que numa gaiola de palavras pode abrir as asas mas não pode voar.




Alguns procurama as palavras com medo de ficarem sozinhos. O silêncio da solidão revela aos próprios olhos o eu mais puro de que alguns, aflitos, gostariam de fugir.



Outros falam e, sem o saberem, ou premeditarem, revelam uma verdade que nem eles entendem. Outros ainda têm em si a verdade, mas não a exprimem por meio de palavras.















Quando encontrardes o vosso amigo à beira do caminho ou na praça do mercado que o espírito anime os vossos lábios e dirija a vossa língua.

Porque a sua alma guardará a verdade do vosso coração como o aroma permanece no vinho.









kahlilGibranOProfetaFoto1RobertParkeHarrisonMarksChris2NirHobFlowers


 




~~







uma voz na pedra











Não sei se respondo ou se pergunto.



Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.

Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.























De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.







A minha tristeza é a da sede e a da chama.


Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.


O que eu amo não sei.






Amo.






Amo em total abandono.


Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente. Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.


Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.


Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.









Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.






Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra












[ antónio ramos rosa







13.3.08

 





~~







TODAS AS PALAVRAS







As que procurei em vão,

principalmente as que estiveram muito


perto,

como uma respiração,


e não reconheci,

ou desistiram e

partiram para sempre,


deixando no poema uma espécie de goa

como uma marca de água impresente;

as que (lembras-te?) não fui capaz de

dizer-te

nem foram capazes de dizer-me;



as que calei por serem muito cedo,

as que calei por serem muito tarde,


e agora, sem tempo, me ardem;


as que troquei por outras (como poderei

esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);



as que perdi, verbos e

substantivos de que

por um momento foi feito o mundo.


E também aquelas que ficaram,

por cansaço, por inércia, por acaso,

e com quem agora, como velhos amantes sem

desejo, desfio memórias,


as minhas últimas palavras.






























ManuelAntónioPinaAlteradofoto1GudrunRaatschen2jMm


6.3.08

 


~







F E A R









Fear of seeing a police car pull into the drive.

Fear of falling asleep at night

Fear of not falling asleep.

Fear of the past rising up.
Fear of the present taking flight.
Fear of the telephone that rings in the dead of night.



Fear of electrical storms.



Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!
Fear of dogs I’ve been told won’t bite.





Fear of anxiety!

Fear of having to identify the body of a dead friend.
Fear of running out of money.
Fear of having too much, though people will not believe this.



Fear of psychological profiles.



Fear of being late and fear of arriving before anyone else.
Fear of my children’s handwriting on envelopes.



Fear they’ll die before I do, and I’ll feel guilty.
Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.

Fear of confusion.
Fear this day will end on an unhappy note.


Fear of waking up to find you gone.

Fear of not loving and fear of not loving enough.
Fear that what I love will prove lethal to those I love.


Fear of death.

Fear of living too long.



Fear of death.



















I’ve said that.
















RaymondCarverMuitoAlteradoTraduçãoEmCommentFoto1CarlRymenamsBusstop2areiaAntonioFRibeiro3martinBiribauer




.


25.2.08

 





~~ ~












estou deitada à semente oval do reino



colo na tua memória poética as cartas do ar

ainda é natal a flor excessiva de rosa falece no vaso

ontem como agora

[ often being a bird

não comer não dormir não ser




des con ti nu ar









teço esta gaiola na água mais limpa

rotina calada da nota mais vaga

sem saber a resposta às perguntas
do sangue

da altura dum sol grotesco e vão









de frente à



inutílima retórica das palavras


pressinto as aves que chegam mais tarde

e porém e ainda

deste


longe mais perto às órbitas que anunciaste



daqui te peço




[ te peço por dentro das luas

que sou












explica-me

[ o branco entre-linhas o canto do ninho

explica-me os pássaros













foto1SleepingWithTheStonesJPSousa2do blog da vi 3MandySchaff





~

8.2.08

 




~~





inventei a dança



inventei a dança
inventei



a


dança.quebra


(( aqui

desnudada faca e ferros


se se adivinhar de que

estrondo.estrilho a talho adivinhar!? ))


xxxxxxxxx


xxxxx


para me

disfarçar ( ai deus





xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx


para me

dis farç ar ( a i



( um passo ante
pa s s o parado abismado )




- onde estiveste tanto tempo sen t ado ) onde ?


sentado

sent ado



intacto.marc ado



( sono sono tenho sono de ti tenho sono de ti



tenho sono.lento tenho.sono lenta sonho sono de ti

de


( No ar agora cabalmente exíguo e seco Mais exíguo e mais seco que o desejo



No ar agora cabalmente exíguo do in s tinto - ai deus


exiguamente.água

deságua

exi

exi
exi






xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx





texto.colagem T S Eliot.Sophia de M Breyner un dress foto1fruitsManuKA2gluecksmarie

17.11.07

 

~~


Devia morrer-se de outra maneira…








Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.


Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".



E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.


Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"


E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se


em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de Outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...









_________________________________________




joséGomesFerreira/alterado.F
otos1NC,2deathMSevy3flowerTripSuzanneB.


29.9.07

 

















chama uma vez vi



uma vez vi um filme em que tudo era
branco
uma vez vi um filme em que pessoas
ardiam
uma vez vi um filme onde os corpos flutuavam em emoções líquidas
uma vez vi um filme em que um rapaz vivia sozinho num farol
embalado pelo sal
pelo vento sibilante das ervas amarelas




uma vez vi um quadro sobre um punhado de areia que era a praia

e um cão de cartão
e um homem de suor.
acontecia num espaço delimitado por bobinas e sons
era um espaço mental mais que um espaço físico,
habitado pelo homem em desespero crescente de comunicar consigo através do cão,
pesquisar o cartão e o calor por dentro do cartão
o suor do seu corpo varre o chão e as bobinas que serão flores mais tarde
som e fita, areia e cinza e suor



o homem nasceu nu e vai despindo sombras
quando se envolve no cenário de plástico
fá-lo numa perfeita e visceral organicidade,
apesar das pétalas de chama que o consomem
há uma fénix de água marinha nas suas palavras
- strangely enough I am conforted by my smallness, and not for a moment dizzy or lost, repete
e repete e repete infantil e sábio, muito perto da luz




























onOcensAndBonesdeRuiHorta






___________________________________

AntónioLoboAntunes Branco*



Branco como o sol
Branco como o mar
Branco como a ruga
De um remo a boiar
Branco como a sombra
Que à noite projecto
Branco com a linha
Dos fios do tecto
Branco como a língua
O leite a loucura
Os olhos da tarde
Como a arquitetura
Das estátuas gregas
Da areia do tempo
Das nuvens imóveis
E do movimento

Meu eu sem tu







Meu tu sem ninguém


Meu ninguém de sombra

Meu perfil de nada
Meu sem sem sem
Minha madrugada
Perdida esquecida
Achada encontrada
Branca como o sol
Branca como o mar
Branca como um tiro
E nada a sobrar


*forma alterada


2.8.07

 




~


Não me importa nada






Não me importa nada que as mulheres tenham seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Não dou nenhuma importância, ao facto de que amanheçam com um hálito afrodisíaco ou com um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que ganharia o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas isso sim--e nisso sou irredutível—não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar. Se não sabem voar perdem o tempo as que pretendem seduzir-me!




Esta foi – e não outra, a razão porque me apaixonei tão loucamente por Maria Luísa.



Que me importavam os seus lábios entalhados e os seus ciúmes sulfurosos? Que me importavam as suas extremidades de palmípede e os seus olhares de prognostico reservado ?



Maria Luísa era uma verdadeira Pluma!









Desde o amanhecer voava do quarto até à cozinha, voava da sala de jantar à dispensa. Voando me preparava o banho, a camisa. Voando fazia as compras, as suas canseiras…




Com que impaciência eu esperava que voltasse, voando de algum passeio pelos arredores! Ali longe, perdido entre as nuvens, um pequeno ponto rosado. "Maria Luísa! Maria Luísa!"... e em poucos segundos, já me abraçava com as suas pernas de pluma, para levar-me voando a qualquer parte.





Durante quilómetros de silêncio planeávamos uma carícia que nos aproximava do paraíso; durante horas inteiras aninhávamo-nos numa nuvem, como os anjos, e de repente, em saca-rolhas, em folha morta, a aterragem forçada de um espasmo.






Que delícia a de ter uma mulher tão leve…, ainda que nos faça ver, de vez em quando as estrelas! Que voluptuosidade a de passarem-se os dias entre as nuvens… a de passar-se as noites de um só voo!










Depois de conhecer uma etérea, pode-nos brindar com alguma classe de atractivos uma mulher terrestre? É verdade que não há diferença substancial entre viver com uma vaca ou com uma mulher que tenha as nádegas a setenta e oito centímetros do solo?





Eu, pelo menos, sou incapaz de compreender a sedução de uma mulher pedestre, e por mais empenho que ponha em concebê-lo, não me é possível nem tão pouco imaginar que possa fazer-se amor a não ser voando.










/texto de oliverioGirondo. in qual é a minha ou a tua língua?-cem poemas de amor de outras línguas.fotos de joannaJoy.blue.ThomasZimmerman.underwater.fairyYale./

porque

voar nadar

é

deslizar

na direcção de

nada

de

s e r

o corpo atirado ao acaso

sustentado

apenas

da sua

beleza

da sua

l e v e z a




~



Anônimo disse...

Não sei se voar me interessa.Porque ao voar mergulho em mim num tal solilóquio que qualquer outro me parece esvaziar-se de sentido. Neste meu exercicio de voar vejo coisas. Neste meu acto de narciso contemplo a transparência da paisagem.

Rui Carlos Souto


28.7.07

 




O DESCASCADOR DE CANELA




Se eu fosse um descascador de canela

deitar-me-ia na tua cama

e deixaria o pó amarelo da casca

na tua almofada.

Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela

nunca mais poderias passar no mercado

sem a profissão dos meus dedos

flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria

certo de quem se aproximava

mesmo que tomasses banho

na chuva das calhas, na monção.

Aqui no cimo da coxa

neste macio pasto
vizinho do teu cabelo

ou do sulco

que te divide as costas. Este tornozelo.


Serás conhecida entre os estranhos

como a mulher do descascador de canela.

Só a custo te podia ver

antes do casamento
nunca te toquei.


- a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.
Enterrei as minhas mãos

em açafrão, disfarcei-as com

alcatrão de tabaco

ajudei os apicultores a colher o mel..

Uma vez que estávamos a nadar
toquei-te na água

e os nossos corpos permaneceram livres,


podias segurar-me e ser cega de cheiro

Saltaste a margem e disseste

isto é como tu tocas as outras mulheres

a mulher do cortador de relva, a filha do queimador de limão


E procuraste nas tuas mãos
o perfume desaparecido

e soubeste

como é bom

ser a filha do queimador de lima

deixada sem marca

como se lhe tivessem falado no acto do amor

como se ferida sem o prazer de uma cicatriz

Roçaste o teu ventre nas minhas mãos

no ar seco e disseste

sou a mulher do descascador de canela.



Cheira-me.









.poema.MichaelOndaatje. tradutor.não id.in qual é a minha ou a tua língua?-cem poemas de amor de outras línguas.formaAlterada.foto1.xMaya.2.semid.3.outInTheFieldsMarkSchroeder.







desejo-vos belos tempos de odor a canela

~~ e belos dias... como só os dias de agosto da infância...

dias

de avós

de amoras.

o corpo ateia no chão

vermelhos rumores indecifrados.

ampulheta dormente

paredes

fremindo

sol

~


18.5.07

 









não dizia palavras






Aproximava só um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.


A angústia abre caminho entre os ossos
Sobe pelas veias
Até abrir-se na pele,
Jorros de sonho
Feitos carne em interrogação às nuvens.


Um toque ao passar,
Um olhar fugidio no meio das sombra,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si um corpo que sonha;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor; iguais em desejo.


Embora só seja uma esperança
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.








/luisCernuda os praZeres proibidos.trad desC. roSes:layritz.karsten/


2.4.07

 



~








Duerme tranquilo




Dijiste la palabra que enamora
A mis oídos. Ya olvidaste. Bueno.
Duerme tranquilo. Debe estar sereno
Y hermoso el rostro tuyo a toda hora.

Cuando encanta la boca seductora
Debe ser fresca, su decir ameno;
Para tu oficio de amador no es bueno
El rostro ardido del que mucho llora.

Te reclaman destinos más gloriosos
Que el de llevar, entre los negros pozos
De las ojeras, la mirada en duelo.

¡Cubre de bellas víctimas el suelo!
Más daño al mundo hizo la espada fatua
De algún bárbaro rey. Y tiene estatua.







[ Alfonsina Storni fot Kerstin Junker




.


5.3.07

 

ca la mus





~






WHEN I HEARD AT THE CLOSE OF THE DAY




When I heard at the close of the day how my name had been
receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a
happy night for me that follow’d;
And else, when I carous’d, or when my plans were accomplish’d,
still I was not happy;
But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health,
refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,
When I saw the full moon in the west grow pale and disappear
in the morning light,
When I wander’d alone over the beach, and undressing, bathed,
laughing with the cool waters, and saw the sun rise,
And when I thought how my dear friend, my lover, was on his
way coming, O then I was happy;
O then each breath tasted sweeter – and all that day my food
nourish’d me more – and the beautiful day pass’d well,
And the next came with equal joy – and with the next, at evening,
came my friend;
And that night, while all was still, I heard the waters roll
slowly continually up the shores,
I heard the hissing rustle of the liquid and sands, as directed to
me, whispering, to congratulate me,
For the one I love most lay sleeping by me under the same cover
in the cool night,
In the stillness, in the autumn moonbeams, his face was inclined
toward me,
And his arm lay lightly around my breast – and that night I
was happy.





QUANDO OUVI PELO FIM DO DIA




Quando ouvi, pelo fim do dia, como o meu nome havia sido
recebido com aplausos no Capitólio, ainda assim não foi
feliz para mim, a noite que se seguiu;
E, quando festejei, ou, quando os meus planos foram atingidos,
assim mesmo não me senti feliz;
Mas, no dia em que cedo me levantei, de perfeita saúde,
renovado, cantando, inalando o maduro fôlego outonal,
Quando vi a lua cheia, a oeste, ficando pálida e a desaparecer
na luz da manhã,
Quando vagueei sozinho sobre a praia e, despindo-me, me banhei,
rindo com as águas frias, e vi o sol nascer,
E quando pensei em como o meu querido amigo, o meu amante, estava a
caminho, Oh, então senti-me feliz;
Então, cada fôlego me foi mais doce – e todo o dia, meu alimento
me nutriu mais – e o belo dia passou bem,
E o seguinte chegou com igual alegria – e com o próximo, pelo fim da tarde,
chegou o meu amigo;
Naquela noite, quanto tudo estava calmo, ouvi as águas rolar
continuamente, lentas sobre as margens,
Ouvi o assobio sussurrado do líquido e das areias, como que dirigindo-se a
mim, cochichando, felicitando-me,
Porque aquele que amo dormia comigo sob a mesma coberta
na noite fria,
No sossego, nos outonais raios de luar, seu rosto inclinado
sobre mim,
Seu braço em redor do meu peito, suavemente – e naquela noite
fui feliz.







in CALAMUS. Walt Whitman. Trad. José Agostinho Baptista





"Cálamo é aqui uma palavra corrente.
Trata-se da erva ou juncácea aromática
de grande porte que cresce nas zonas
pantanosas dos vales,
cujo caule mede quase um metro de altura;
vulgarmente chama-se sweet-flag;(...)"
(carta de Whitman ao seu editor inglês em 1867)




Arquivos

03.07   04.07   05.07   07.07   08.07   09.07   11.07   02.08   03.08   04.08   05.08   06.08  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

Assinar Postagens [Atom]